Texto para Cristiano

Meu querido amigo Cristiano Rogério Alcântara pediu que eu compartilhasse com vocês um texto ou o resumo de um. Tenho vários artigos, livros e capítulos de livros publicados, mas, nesse momento, lembrei-me de um livro de autoria solo do qual gosto bastante. Ele intitula-se “Dez lições aos estudantes de Pedagogia”. A parte que ora divulgo refere-se à apresentação do livro. Por meio dela, vocês poderão ter uma ideia das temáticas desenvolvidas. Inicio com uma citação de Jean-Jacques Rousseau

Não se conhece a infância: com falsas ideias que dela temos, quanto mais longe vamos, mais nos extraviamos. Os mais sábios apegam-se ao que importa que saibam os homens, sem considerar que as crianças se acham em estado de aprender. Eles procuram sempre o homem na criança, sem pensar no que esta é, antes de ser homem. Eis o estudo a que mais me dediquei a fim de que, ainda que seja meu método quimérico e falso, possam aproveitar minhas observações. Posso ter muito mal visto o que cabe fazer; mas creio ter visto bem o paciente que se deve operar. Começai, portanto, estudando melhor vossos alunos, pois muito certamente não os conheceis; e se lerdes este livro tendo em vista esse estudo, acredito não ser ele sem utilidade para vós.

Rousseau, no século XVIII, já apresentava um discurso que parece tão atual, não é? Por isso ele é um clássico. A citação acima sempre me impactou, pois entendo que quem busca trabalhar com crianças tem de conhecer as características da infância e as próprias crianças em sua individualidade, e entender que a maior motivação dos pequenos é aprender. Elas buscam o conhecimento e, nós, educadores, temos de saber aproveitar esse momento disponibilizando atividades que fazem sentido e que despertam o interesse e a curiosidade delas. Temos de saber como nos ensina Freire (2004) que a criança “não é, mas está sendo”.
Sempre tive vontade de escrever um livro aos alunos de Pedagogia e aos professores no qual eu pudesse apontar as dificuldades, as alegrias e as angústias que vivi durante minha trajetória profissional. A motivação em começar a rascunhá-lo surgiu após ter lido no Caderno ILUSTRADA do jornal “Folha de S.Paulo”, veiculado no dia 24 de setembro de 2011, uma coluna intitulada “Aos Estudantes de Medicina” na qual o doutor Dráuzio Varella apontou aspectos importantes referentes ao exercício da medicina a esses futuros profissionais. O doutor Varella aproveitou a oportunidade e resumiu as lições mais importantes que aprendeu em 40 anos exercendo esse ofício.
Ao ler a matéria, por sinal muito interessante, pois nela foram apontadas as responsabilidades que um médico deve ter fazendo-o refletir sobre a carreira que escolheu, tive o insight1 de escrever as lições mais importantes que aprendi durante 25 anos exercendo a profissão de professora nos diferentes níveis da Escola Básica, da qual muito me orgulhei e a qual me gratificou intensamente. Escrevo os verbos no passado, pois no ano de 2002, interrompi minha atuação nos referidos níveis de ensino e, desde essa época, exerço o magistério no Ensino Superior formando professores que atuam e irão atuar na Educação Infantil e no primeiro ciclo do Ensino Fundamental e que serão futuros formadores de professores.
Durante esses 13 anos de experiência ministrando aulas no curso de Pedagogia, tive e tenho a oportunidade de compartilhar aquilo que aprendi quando vivenciei “a escola real” e o privilégio de aprender com os futuros professores que hoje pisam o chão da escola e que, com certeza, vivem momentos tão desafiadores ou mais do que os que eu vivi. Nessa troca de experiências, percebo, por meio de suas falas e dúvidas o quanto alguns pontos necessitam ser discutidos.
Esclareço que a experiência profissional foi fundamental para eu aprender o ofício de professora, mas não posso deixar de enfatizar que as lições que discuto nesse livro também são decorrentes da minha trajetória acadêmica que se iniciou em 1978, quando ingressei na faculdade de Psicologia. Em seguida cursei, respectivamente, pós-graduação Lato Sensu em Psicopedagogia, Mestrado em Educação, Pedagogia, Doutorado em Educação e Psicanálise. Vale salientar que, anteriormente, também fui aluna do antigo curso Magistério. Com isso, quero dizer que me fiz e me faço professora na ação-reflexão-ação, na relação da teoria com a prática, pois sem isso seria impossível ter trilhado este caminho.

Assim, o objetivo desse livro está em apontar aos licenciados de Pedagogia e professores, as lições que podem ser levadas em consideração no ambiente escolar para que seus futuros alunos, alunos e respectivos pais possam vislumbrar uma escola que se mobilize em prol do aprendizado das crianças levando em consideração suas especificidades, suas linguagens e suas culturas.
Não se trata de um manual para o professor, pois se somos seres históricos, portanto, inacabados, incompletos e inconclusos (Freire, 2004), nos formamos no cotidiano. São lições que aprendi nos livros e na escola com demais colegas e alunos e que, quando repensadas possibilitaram que eu revisse minha atuação profissional. É com o intuito de também levá-los à reflexão que compartilho com vocês, leitores, as lições que aprendi no decorrer de minha carreira profissional. Em algumas delas apresento situações reais que ocorreram nessa jornada e que me fizeram repensar minha prática docente.
O livro está organizado em dez capítulos, sendo que em cada um deles discuto uma lição fundamental à prática pedagógica. Na primeira capítulo lição denominada “Não basta gostar de criança para ser professor” ressalto que esse é o discurso da maioria dos alunos que ingressa no curso de Pedagogia. Aponto que para ser pedagogo exige-se muita leitura, tanto dos textos acadêmicos indicados pelos professores, quanto de livros de nossa literatura, de revistas e de jornais. Como incentivar a leitura nas crianças e encantá-las sobre o que ocorre ao seu redor, se não lemos e se não estamos informados sobre o que acontece no mundo? Pedagogia é para quem gosta de estudar e de ler, pois exige atualização constante dos diferentes métodos de ensino, das diferentes teorias de aprendizagem, além de conhecimento das políticas públicas voltadas à educação.
Na segundo lição discuto sobre “O professor e o conhecimento sobre a linguagem oral e escrita”. Abordamos tais categorias trazendo à tona as discussões contidas no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI, 1998). Aponto que, segundo esse documento trabalhar a linguagem na Educação Infantil se constitui em um eixo básico para essa etapa de ensino, uma vez que ela é fator primordial para a formação do sujeito e para a interação com o próximo. Além disso, a linguagem orienta as ações da criança, ajuda a construir conhecimentos e promove o desenvolvimento do pensamento. Vale lembrar que à época do lançamento do livro ainda não contávamos com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC)

Em seguida, apresento a lição 3 denominada “Utilizem o conhecimento prévio de seus alunos. Você poderá se surpreender”. As crianças não são folhas de papel em branco na qual iremos imprimir os ensinamentos. Elas chegam à escola, independentemente da idade, com aprendizagens adquiridas via educação informal, ou seja, aprendizagens apreendidas em família, na rua, no clube, no parque e por meio dos veículos de comunicação de massa. Essas experiências são valiosas e devem ser aproveitadas pelo professor, pois além de enriquecer a aula, o aluno sente-se valorizado e reconhecido, portanto, nosso papel desenvolver habilidades e competências que lhe foram negadas por questões sociais.
Na quarta lição chamada “A criança que apresenta dificuldade de aprendizagem necessita do seu apoio e não de sua repreensão”, alerto para o que se denomina “dificuldade de aprendizagem” e aponto que algumas crianças realmente as apresentam e que merecem ser encaminhadas aos diferentes profissionais e que as causas diferem para cada uma delas, mas nem sempre isso é verdadeiro. Temos de conhecer as crianças que estão sob nossa responsabilidade, buscar entendê-las e apoiá-las naquilo que necessitam. Um olhar e uma escuta atentos poderão mudar a situação. A criança precisa se sentir compreendida e acolhida. É com essa confiança em nós que ela poderá sentir-se segura para enfrentar os desafios do aprender e conhecer.
Na quinta lição intitulada “Não deleguem a outros profissionais a responsabilidade que é sua”, insisto novamente que devemos conhecer nossas crianças. Muitas vezes a forma que ensinamos e a linguagem que utilizamos não são adequadas e elas não entendem. O papel da escola é ensinar e, se for necessário, temos de utilizar diferentes recursos para alcançar nosso objetivo. A escola não pode se isentar de sua responsabilidade, transferindo à família ou a outros profissionais compromissos que a ela competem. Por isso, julgo adequado discutir os problemas cotidianos com a equipe escolar, pois veremos que muitos de nossos colegas também os enfrentam. Esse diálogo nos permite observar que não estamos sozinhos em determinada situação e, com apoio mútuo, as possibilidades de mudança poderão surgir.
Na sexta lição intitulada “Reunião de pais como um espaço onde eles possam refletir sobre a proposta pedagógica da escola a fim de que entendam o porquê das atividades que seus filhos realizam”, saliento que muitos pais podem ser excelentes engenheiros, médicos, jornalistas, enfermeiros, mestres de obra, cozinheiras e faxineiras, mas muitos desses profissionais são leigos em educação, quero dizer, quanto aos referenciais abordados pela área educacional, da mesma forma que somos leigos em medicina, jornalismo, enfermagem e engenharia e obras. Portanto, faz toda diferença na qualidade do trabalho escolar quando professores e equipe escolar discutem com familiares e/ ou responsáveis em todos os momentos possíveis: portão, visitas da família na escola, festas, exposições etc. o porquê de determinada atividade e qual o objetivo que se busca alcançar. À escola cabe informar aos pais sobre seu projeto político-pedagógico para que eles saibam da importância de se desenvolver uma dada tarefa.
Em seguida, na lição 7 denominada “O professor e a leitura da realidade pedagógica” discuto sobre a importância de o docente estar atento ao que ocorre à sua volta. Por que tal criança não aprende? Por que tal criança é tão agressiva? Por que tal criança tem tanta dificuldade em se expressar? Nem sempre a fala ou o gesto da criança manifestam o que realmente ela está sentindo. O conteúdo manifesto2 é um, mas o latente3 tem de ser lido na relação íntima e de cumplicidade com a criança. Nossa escuta e nosso olhar atentos permitem que novos significados sejam atribuídos ao que se passa com uma determinada criança. Nem sempre estamos corretos em nossas observações. É necessário decifrar a realidade pedagógica para que possamos atingir nossos objetivos.
Na lição 8 intitulada “O professor e o desenvolvimento psíquico da criança” aponto que quando se fala da constituição psíquica do sujeito tem-se de considerar os aspectos biológico, psicológico, social e cultural, sob o entendimento de que são os vínculos afetivos que unificam todos eles, uma vez que um afeta o outro de determinada maneira. Destaco que o bebê é o único mamífero que, devido à sua prematuridade, tem necessidade do outro. A mãe (Outro primordial), e a professora (Outro cuidador), interagindo com ele, ensina o bebê a ler o mundo por meio dos órgãos dos sentidos na medida em que lhe apresenta os diferentes sons, odores, texturas e, principalmente quando o toca. No início da vida, o bebê vive uma dependência absoluta de seus cuidadores, aos quais cabe garantir a satisfação de suas necessidades. Trago autores da psicanálise para discorrer sobre o desenvolvimento psíquico da criança.
Em seguida, na lição 9 denominada “O professor é responsável pelo desenvolvimento emocional da criança pequena”, aponto que, na sociedade contemporânea, na qual a maioria das mulheres está inserida no mercado de trabalho, a Educação Infantil tornou-se um espaço fundamental para o cuidado, a educação e a socialização das crianças. Diferentes atividades e atitudes devem ser promovidas e tomadas a fim de que elas possam se desenvolver nos aspectos físico, social, emocional, da linguagem e da motricidade. Porém, ainda se evidenciam, nos dias atuais, condutas desrespeitosas de professores cujas consequências para o desenvolvimento emocional da criança de zero a cinco anos de idade merecem reflexão.
Termino com a lição 10 discutindo um tema que penso ser imprescindível “Sexualidade se discute e se aprende na escola”. Ressalto que, desde a mais tenra infância, as questões que envolvem a sexualidade devem ser abordadas de maneira natural, sem preconceitos. Para isso, o professor deve se libertar de suas amarras e buscar informações em como abordar esse aspecto com as crianças. Aponto que as respostas às perguntas das crianças devem ser dadas levando-se em consideração a idade de cada uma, porém de maneira natural e correta. Esse aspecto faz com que as crianças sintam segurança em seus professores e permite que a sexualidade seja “encarada” de maneira saudável e sem tabu.

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