Projeto Político Pedagógico: um aliado na garantia da gestão pedagógica

Adriana Santiago Silva

Falar a respeito de gestão democrática tornou-se algo bastante comum, em especial por estar atrelada ao processo de democratização da educação no Brasil, assim como possuir por pressuposto a implementação da democratização das relações a partir da participação da comunidade escolar e, nesta perspectiva, cabe um destaque para os Projetos Político-Pedagógicos elaborados pelas escolas, que consideram as particularidades e diferentes realidades de determinada comunidade, com vistas à aprendizagem permanente dos sujeitos, primando pela participação de todos na construção de um projeto norteador de ações significativas dentro de um determinado contexto.

Porém, apesar de a gestão democrática ser assunto recorrente na área da Educação nas últimas décadas, durante muitos anos o papel da gestão escolar, em especial do diretor, foi visto como de uma pessoa autoritária, que reproduzia ainda os ecos ditatoriais, os quais não permitiam muitos questionamentos sobre as decisões. Atualmente é possível verificar que houve muitos avanços no tocante ao discurso, cuja apropriação é inegável, porém Vitor Henrique Paro (2015) nos convida a compreender o quanto a gestão democrática ainda é um desafio, sendo que, na prática diária, não são poucos os que esperam da gestão ações que permeiem o autoritarismo dentro das escolas.

O modelo de gestão centralizadora e detentora de verdades absolutas já não contempla mais os anseios e as necessidades atuais no interior das escolas, fazendo com que haja uma ruptura importante para avanços significativos rumo a uma escola democrática: o diretor escolar passa a ser o grande articulador do Projeto Político-Pedagógico da unidade escolar onde atua.

Nesta perspectiva conclui-se que os princípios éticos, estéticos e políticos, presentes na escrita de todos os projetos político-pedagógicos carecem também estar presentes nas paredes, nas salas de aulas, nas reuniões pedagógicas, enfim, no cotidiano escolar. E isso é desafiador! Porém necessário…

Quando dialogamos sobre princípios, os discursos nos remetem a uma situação de superação, pois, via de regra, concordamos que são elementos primordiais para pensarmos em uma educação de qualidade e que contemple a todos, todavia, é no acompanhamento das ações no cotidiano escolar que podemos, de fato, verificar o quanto temos (ou não) avançado nesta temática. Momentos importantes da rotina, tais como: acompanhamento da entrada dos alunos, alimentação, organização de tempos e espaços, planejamento dos professores, entre outros, caracterizam a materialização do Projeto Político-Pedagógico. Daí a necessidade extrema deste acompanhamento zeloso dos indicativos presentes no documento, para que se transforme em um documento vivo, que reflita a realidade escolar, caso contrário será meramente mais um documento para eventuais consultas e que não garantirá o princípio democrático da gestão.

Compreender de qual lugar falamos e quais são os desafios para que a gestão democrática ocorra, de fato, no interior das escolas públicas, com vistas à melhoria das práticas pedagógicas é o que queremos provocar com esta leitura, objetivando que este conceito mais amplo seja legitimado pelos profissionais da educação, funcionários e famílias, uma vez que todos somos responsáveis por uma educação de qualidade para nossas crianças.

Para tanto, é necessário considerar que o princípio no qual uma gestão democrática se estabelece é a partir de um coletivo (uma tarefa bastante árdua, uma vez que requer a escuta atenta de diversas vozes: crianças, famílias, professores, funcionários) e a mediação constante frente aos impasses que surgem, resultando em uma construção de trabalho realizada por muitas e diferentes mãos. Todavia cabe uma reflexão importante sobre o perigo imbuído nesta ação, uma vez que a adesão ao discurso democrático nem sempre ocorre na mesma ordem que a concretude deste fazer, por isso há de se cuidar deste processo, avaliando sempre a relevância das discussões em pauta, primando por considerar os diferentes saberes.

Desta sorte, o diretor escolar tem um papel ainda mais primordial no processo de ensino-aprendizagem, que é a observância incansável do caminhar conjunto da prática e teoria com vistas à garantia de direitos de aprendizagem, conforme previsto na Constituição, tendo como grande aliado o Projeto Político-Pedagógico na perspectiva de uma educação reflexiva e libertadora, que considere os diferentes atores de sua composição e sua singular realidade.

Cabe salientar que este olhar cuidadoso do diretor escolar, no que tange prática e teoria, necessita estar pautado no compromisso com a formação humanizadora (Sacristán, 2001) dos sujeitos, não perdendo de vista o fundamento mais digno da Educação, que vislumbra que todos são capazes de aprender.

Quando assumimos que a Educação é um dos caminhos possíveis para a contribuição de uma sociedade igualitária, objetivando a inclusão social, assumimos também a responsabilidade de zelar pelos princípios que empoderam esta ação no interior das escolas públicas. Se isto não for observado nas ações cotidianas, a escola não estará a serviço da dignidade humana, perdendo então o seu caráter emancipatório.

Referências
GIMENO SACRISTÁN, J. A educação obrigatória: seu sentido educativo e social. Porto Alegre: ARTMED Editora Ltda, 2001.

PARO, Vitor Henrique. Diretor escolar: educador ou gerente. São Paulo: Cortez, 2015.

1 Mestranda em Educação pela UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo. Pós graduada em Docência do Ensino Superior e Neuropsicopedaogia. Graduada em Letras e Pedagogia pela FASB. Atua na área de Educação há 21 anos, passando pelos cargos de docente, coordenadora pedagógica e gestora pública na Secretaria Municipal no Grande ABC. Atualmente exerce o cargo de diretora escolar em uma escola de educação básica – ensino fundamental.