A formação continuada de professores • 1º Ato

Identidade profissional e o compromisso com a própria formação: O professor autor do seu processo de aprendizagem

Por: Renata Araujo

Aprender e ensinar não devem ficar em bancos opostos e apenas observar o fluxo do rio; ao invés disso, eles devem embarcar juntos em uma jornada pela água. (Gardner, 2013 apud Malaguzzi)

Como professores, ao falarmos sobre os processos de ensino e aprendizagem, normalmente, referimo-nos aos nossos alunos e sua experiência aprendiz, por vezes, esquecendo-nos que sobretudo, esse é um compromisso que assumimos com nossa própria formação, não apenas acerca dos conteúdos a serem “ensinados”, mas sobre nossa aprendizagem do mundo, sobre a curiosidade viva pela descoberta.

Esse texto é sobre a jornada pela água, a jornada de educar (se) nesse processo lindo e árduo chamado educação.

Como formadora de professores, há tempos reflito sobre os processos de formação… Mas muito antes disso, ao investigar meu percurso como professora e aprendiz, reflito sobre o compromisso com a minha formação, entendendo-me como autora do meu próprio processo na vida e na profissão.

Nesse caminho, percebo o quanto o desenvolvimento profissional não se faz apartado da história do sujeito, ao contrário, constitui-se a partir do indivíduo, em uma experiência interna que se dá em diálogo com a história de vida e de formação.

Refletir sobre a identidade profissional é ponto de partida para a construção do professor autor, que vai em busca de si mesmo em um exercício do ato curioso diante do mundo.

Entendo que a identidade é algo que se constitui no coletivo, com os tantos outros que nos habitam, podemos dizer que o professor pesquisador assume seu compromisso com a própria formação, mergulhado em sua história pessoal de busca pela aprendizagem, junto com outros, na relação, na troca com os pares, no confronto de ideias, na conexão entre diferentes pontos de vista, na curiosidade incessante pelo conhecimento.

Nesse movimento de compor ideias, de pôr-se com o outro em um diálogo que é ao mesmo tempo coletivo e individual, interno e externo, vamos constituindo e ressignificando nossa identidade pessoal e profissional, construindo nossa palavra autora e, mais que isso, assumindo-a junto aos outros, como nos diz Larrosa (2014):

Para podermos nos falar precisamos falar e escrever, ler e escutar, talvez pensar, em nome próprio, na primeira pessoa, com as próprias palavras, com as próprias ideias. Obviamente, só podemos falar (e escrever) com as palavras comuns, com essas palavras que são ao mesmo tempo de todos e de ninguém. Falar (ou escrever) com as próprias palavras significa se colocar na língua a partir de dentro, sentir que as palavras que usamos têm a ver conosco, que as podemos sentir como próprias quando as dizemos, que são palavras que de alguma maneira nos dizem, embora não seja de nós de quem falam. Falar (ou escrever) na primeira pessoa não significa falar de si mesmo, colocar a si mesmo como tema ou conteúdo do que se diz, mas significa, de preferência, falar (ou escrever) a partir de si mesmo, colocar a si mesmo em jogo no que se diz ou pensa, expor-se no que se diz ou pensa. Falar (ou escrever) em nome próprio significa abandonar a segurança de qualquer posição enunciativa para se expor na insegurança das próprias palavras, na incerteza dos próprios pensamentos. Além disso, trata-se de falar (ou de escrever), talvez de pensar, em direção a alguém. A língua da experiência não traz só a marca do falante, mas também a do ouvinte, a do leitor, a do destinatário sempre desconhecido de nossas palavras e de nossos pensamentos. (…) falar (ou escrever) em nome próprio significa também fazê-lo com alguém e para alguém. (LARROSA, 2014, p. 70)

Esse indivíduo autor de suas próprias palavras, que fala em nome próprio ao mesmo tempo em que fala em direção a alguém, constitui sua autoria profissional alicerçada em sua postura aprendiz e pesquisadora diante do mundo. Nesse exercício de conhecer (se), conhece e se apropria de sua profissão, dando corpo ao professor pesquisador que aqui, tem como objeto de pesquisa seus alunos, o ensino e a aprendizagem. Aspectos centrais da ação profissional docente. Como nos disse Antonio Nóvoa em uma entrevista, “é preciso que se tenha o trabalho de estudar o trabalho.”
Esse é o compromisso do professor e não pode ser delegado a outros, o compromisso de estudar o trabalho. O coordenador pedagógico, os cursos de extensão, a escola como suporte para a formação continuada dos professores… todos agentes complementares de uma formação que tem sua centralidade no próprio professor que assume de forma consciente e consistente a pesquisa de sua ação docente, que investiga sua prática cotidiana, que estuda a aprendizagem dos seus alunos e repensa seu ensino em direção a uma aprendizagem significativa para todos os envolvidos no processo, inclusive ao próprio professor, que ao estudar a aprendizagem de seus alunos, apropria-se mais e mais do seu próprio saber, do seu ensino e da ação docente.

A postura comprometida e investigativa acerca de seu papel, das camadas que envolvem o ensino e a aprendizagem (colocados lado a lado, como mencionado no início desse texto), que possibilita ao professor a construção autora do seu papel, mergulhado nessa experiência integrada de ensino e aprendizagem, para o outro e para si mesmo, como aponta Freire (2016):

[…] Aprender precedeu ensinar ou, em outras palavras, ensinar se diluía na experiência realmente fundante de aprender. Não temo dizer que inexiste validade no ensino de que não resulta um aprendizado em que o aprendiz não se tornou capaz de recriar ou de refazer o ensinado, em que o ensinado que não foi apreendido não pode ser realmente aprendido pelo aprendiz. (Freire, 2016, p. 26)

E nesse movimento de recriar o aprendido, de reinventar e ressignificar sua própria prática ao estudá-la, de criar suas próprias teorias acerca do aprendizado em diálogo com as teorias/pesquisas que alicerçaram sua formação, o professor se constitui autor de seu próprio processo, ao mesmo tempo em que possibilita aos seus alunos sua construção autora, no exercício constante de sua curiosidade do mundo e da pesquisa séria e comprometida que transforma a curiosidade em conhecimento.

Bibliografia
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

KRECHEVSKY, Mara. MARDELL, Bem. RIVARD, Melissa. WILSON, Daniel G. Visible Learners: promoting Reggio-inspired approaches in all schools. San Francisco: Jossey-Bass:A Wiley Brand, 2013.

LARROSA, Jorge. Tremores: Escritos sobre experiência. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.

NÓVOA, Antonio. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=4kRP8NQPes4 >. Acesso em: 18 de junho de 2020.